Jñana Mudra e a Prática do Conhecimento

Por Ana Paula Bianco

Este seria, a princípio, um artigo sobre mudras, mais especificamente sobre o Jnana-Mudra, o gesto do conhecimento que é um dos primeiros mudras que nós ocidentais conhecemos, normalmente associado à meditação. Contudo, conforme fui desenvolvendo a idéia do artigo a ser escrito, senti uma necessidade mais premente de abordar minha experiência com tudo o que este mudra significa, do que simplesmente dissertar sobre ele de forma teórica, visto que já bastante conhecido de todos.

Assim, comecei pesquisando sobre mudras e o gesto sobre o qual iria discorrer:

“Os mudras são os gestos simbólicos que são associados aos buddhas. Esses gestos são muito utilizados na iconografia hindu e buddhista.

Mudra, uma palavra com muitos significados, é caracterizada como gesto, posicionamento místico das mãos, como selo ou também como símbolo. Estas posturas simbólicas dos dedos ou do corpo podem representar plasticamente determinados estados ou processos da consciência. Mas as posturas determinadas podem também, ao contrário, levar aos estados de consciência que simbolizam. Parece que os mudras originaram-se na dança indiana, que é considerada expressão da mais elevado religiosidade. […] O significado espiritual dos mudras encontra sua expressão perfeita na arte indiana. Os gestos das divindades representadas na arte hinduísta e buddhista e os atributos que os acompanham simbolizam suas funções ou aludem a determinados acontecimentos mitológicos. […] No decorrer dos séculos, os buddhas e bodhisattvas representados iconograficamente com seus gestos simbólicos e atributos propiciaram o estado de espírito próprio da meditação e criaram uma profunda atmosfera de crença.” (Ingrid Ramm-Bonwitt, Mudras)

Jnana é um dos mudras mais conhecidos no ocidente, clássico do iogue, e significa conhecimento, em sânscrito. É um gesto simbólico feito com as mãos, em que o dedo indicador, simbolizando o ego, curva-se em direção ao dedo polegar, simbolizando a consciência livre de ego, essência em si mesma, parte integrante da consciência suprema ou cósmica, objetivando atenuar o sentimento de individualização/separação egóica.  É muito utilizado no Yoga na pratica de ásanas, pranayamas (exercícios respiratórios) e na meditação, a fim de manter o prana (energia vital) circulando pelo corpo e evitando que se dissipe completamente. Conecta, ainda, os pólos positivo e negativo (representados pelos dedos indicador e polegar de cada mão), permitindo a passagem de uma corrente de energia vital com baixa amperagem. Apoiados sobre os chakras dos joelhos, que são secundários e responsáveis pelas relações de aprendizagem e ensino, potencializam a flexibilidade em lidar com grandes quantidades de energia.

Este, portanto, é o Mudra da sabedoria:

O gesto em si, simples, curvando o indicador sobre o polegar ou em suas variações, em que o indicador vem apoiado no início das articulações do polegar, no sentido de curvar o ego diante da essência, eis aqui a tarefa mais árdua do Yogue ou de qualquer espiritualista, fim maior em si mesmo e sobre a qual, na verdade, tive grande vontade de escrever.

Depois de anos de estudos sobre a espiritualidade e teosofia, além de alguns anos de prática de Yoga, muitas idéias, insights e comportamentos foram surgindo em minha vida, tornando muito claro, para mim, o significado do gesto que trato neste trabalho.

Com o passar do tempo, acabei me deparando com uma realidade interna mais profunda, que vem se pronunciando nos últimos anos e que me pareceu mais adequada e interessante para compartilhar, justamente por tratar de experiência e não apenas teoria.

O gesto do conhecimento – Jnana nos remete ao conhecimento primeiro, que nos integra ao universo cósmico ou consciência suprema, sem qualquer separação, trazendo à personalidade/ego pouquíssimo valor, em vista da supervalorização incutida na cultura ocidental.

Quando se inicia o contato com este conhecimento internamente, há que se imputar boa porção de humildade ao ego, para que se possa reconhecer esta premissa e iniciar o condicionamento da mente para que entenda assim.

Mas com o passar do tempo, não sei precisar o momento, essa realidade foi se incorporando e hoje percebo que a batalha mais difícil a ser travada no cotidiano é justamente o desejo de não controlar nada, nem a mente condicionada, mesmo tendo consciência de estar ainda muito longe dessa condição, exatamente pela necessidade da mente em controlar absolutamente tudo.

O controle sobre o controle. Momento de não controlar nada, apenas observar e ser, verdadeiramente, testemunha impessoal das sensações pessoais, como define nosso Mestre Andrês.

Tarefa árdua, mas possível. Possível diante da escolha que a todo o momento se pode fazer: envolver-me com o que penso ou simplesmente observar os pensamentos e as sensações que esse pensamento gera, no aqui e agora.

E este “conflito” foi se expandindo, invadindo todas as áreas da minha vida, familiar, afetiva, profissional, etc., e criando a necessidade interna de entrar cada vez mais em contato com estudos, pessoas e locais onde este conhecimento é mais evidente, como uma fonte inesgotável para uma sede que nunca se esvai.

Aos poucos, a vida, então, passou a ter um novo sentido, tudo é visto e apreendido de forma cada vez mais simples e profunda, trazendo bem estar e sensações de plenitude em momentos dos mais simples, como num banho de chuveiro ou no vôo de uma borboleta que cruza o caminhar na rua.

Interessante constatar as mudanças que naturalmente e concomitantemente foram ocorrendo em minha vida, gradualmente, desde a alimentação, postura, até meus relacionamentos e necessidades pessoais, tudo se alterando coerentemente com o crescimento pessoal que a impessoalidade acaba por desenvolver.

Trouxe a constatação de um movimento interno absolutamente sem volta, irreversível, que me remete a realidades muito diferentes da vida cotidiana comum, existente em consonância e concomitância, mas nunca antes percebida como tal.

A percepção do observador, aí o segredo, como observadora impessoal tive a percepção do mundo ao meu redor extremamente aumentada, com riqueza interminável de detalhes, como se a vida cotidiana sem esse enfoque, me embriagasse a ponto de causar um entorpecimento útil, não me deixando perceber nada mais além do que se convencionou ser importante pela sociedade em que vivo.

Hoje, essa percepção alcança mais nuances a minha volta, trazendo certo “senso” que acaba por me despertar a consciência de aspectos que antes jamais seriam notados, nas coisas, nas pessoas, na mídia, nas relações em geral, trazendo questionamentos que trazem à tona, cruamente, a necessidade do controle que a mente exerce em todos nós. Observando o que está fora, os outros, nos percebemos também.

Assim, a cada momento percebo, mais e mais, quanta energia é desperdiçada na ânsia de controlar tudo, com sentimentos conflituosos, medo e angústia, e para evitar as catástrofes, pequenas a grandes, que a mente apresenta para justificar o controle. Não posso controlar nada, nem evitar nada, mas posso escolher não me envolver com estes pensamentos, não dar importância a eles e apenas observar, como se a mente fosse um brinquedo, um jogo, onde ganha aquele que menos lhe der atenção.

Por outro lado, esse jogo é extremamente útil, porque vai condicionando a mente a cada vez mais aceitar a observação como padrão, ajudando no desapego, inclusive da inferência, do raciocínio lógico tão incrustado e valorizado na forma ocidental de ver o mundo.

E exatamente nos poucos momentos em que o raciocínio lógico constante pára de agir, pela simples observação, é que se pode aumentar a percepção, com o mínimo ou, o que seria o ideal, sem qualquer conhecimento pré-concebido do que me rodeia e aí sim perceber o momento que vivo e o que o envolve de forma mais ampla, gerando sensações de plenitude e extremo prazer interno.

Mas todo esse processo, que o Jnana-Mudra simboliza de forma tão simples e sutil, se caracteriza por inúmeras dificuldades para quem a ele se dedica, porquanto grandes obstáculos são apresentados pela mente constantemente, enredando o observador para que este se apegue aos julgamentos, para assim fortalecer o ego e, consequentemente, diminuir o poder de observação.

O meio em que vivemos no ocidente também não ajuda em nada nesse processo, ao contrário, pretende mesmo a total escravização das pessoas pelo ego, justamente por ser este suscetível às manipulações pelos meios de comunicação em massa, cujo objetivo maior é o consumo desenfreado.

Há que se falar, ainda, dos próprios conflitos inerentes ao ser humano como as paixões, vaidades, orgulho, sede de poder, entre outros, todos inerentes ao ego e presentes em cada um de nós em intensidades variantes a cada momento. Até mesmo a generosidade ou a caridade trazem ao homem certa dosagem de prazer, tudo presente para fortalecer cada vez mais o ego/personalidade.

Assim, o segredo maior para que se atinja o que o gesto do Jnana-Mudra sugere e simboliza, está em encontrar o equilíbrio entre observador e ego, tanto quanto entre o observador e todos os instrumentos que este possui em seus corpos físico e sutis para exercer sua vivência no agora, corpo, mente, pensamentos, emoções, sensações, etc.

Mas para que este equilíbrio se instale, há que ser buscado por quem o almeja, a cada instante e por toda a existência, insistentemente, daí seu imenso grau de dificuldade, porém a única busca que nos traz o verdadeiro conforto, por nos remeter a exatamente a única coisa que somos permanentemente, no aqui e agora, que é o único momento que realmente existe.

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