O Caminho para o Real

Por Samir Daher

“A fantasia é o reino intermediário que se inseriu
entre a vida segundo o princípio de prazer e a
vida segundo o princípio de realidade.”
(Sigmund Freud)

Um fato curioso chamou minha atenção quando pensava em um tema para este artigo: uma amiga, que estava desempregada há algum tempo, conseguira uma recolocação em sua área de trabalho, estava feliz por estar novamente empregada, porém preocupava-se. Indaguei sobre a causa de sua preocupação, a que me respondeu que fizera a promessa de rezar mil Ave-Marias caso conseguisse um emprego. Preocupava-se em como iria conseguir cumprir a promessa. Curioso, perguntei para quem ela iria rezar, e ela disse prontamente: “Para Deus!”. Mesmo sendo criado em um ambiente católico, imaginei se Deus realmente fez surgir a vaga de emprego em troca de mil Ave-Marias…

Não questiono a fé e a crença de ninguém, mas fiquei pensando em como dirigimos orações a seres abstratos, como Deus. Acredito que a existência do universo e todos seus fenômenos visíveis dependem de seus meios ativos e de suas leis de ação e reação, mas não de orações.

Creio que a fé verdadeira surge da crença baseada no conhecimento oriundo da evidência; evidência, que por sua vez, concretiza-se através dos sentidos físicos e dos sentidos espirituais, isto é, por meio da observação e compreensão da inteligência corporal e espiritual.

Através dos tempos, diversos filósofos tentaram penetrar e compreender a essência desta fé verdadeira, porém a maioria fracassou em seu intento, exceto os que tinham uma base para executá-lo, os sábios orientais. Qual era a base destes sábios? O Yoga.

A palavra yoga provém da raiz sânscrita yuj, a qual confere o sentido de união. O objetivo do yoga é gerar equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Este equilíbrio é atingido quando se consegue aquietar a mente, mantendo-a em estado de harmonia independente dos acontecimentos externos.

No yoga a mente é comparada a um rio que flui por dois caminhos, um começa na ignorância e termina na reencarnação, o outro caminho começa na concentração e termina na libertação; a concentração proporciona meios para o homem evoluir e a libertação é atingida através de práticas de renúncia.

Acreditamos que devemos correr atrás da felicidade, achamos que os outros são responsáveis por nossa felicidade. Não percebemos que tudo isso é uma projeção que fazemos. Segundo a filosofia budista, felicidade e sofrimento são estados mentais.

“É unicamente pelo pensamento que você se ilude, que passa pela experiência do nascimento e da morte, que fica preso ao mundo e se liberta dele…Sua situação presente foi projetada pelos seus próprios pensamentos. Se acreditar que está separado do Absoluto, estará de fato separado. Se pensar que é Brama, assim será. Você se limita com seus pensamentos.”  (Sivananda 2009)

Mas como nos limitamos? Como nossa própria capacidade criadora nos impede a realizar nossos intentos?

Há pensamentos e desejos que nos impelem a sermos pessoas melhores; se não tenho desejo de conhecimento como posso evoluir?  Entretanto não é todo pensamento nem todo desejo que nos tornam pessoas melhores, nosso conflito surge quando depositamos nossa felicidade em algo externo, e quando nosso intento não se realiza, ficamos angustiados e deprimidos, culpando outras pessoas, o destino, nos considerando sem sorte.

Retornando à indagação, exemplifico com a antiga afirmação de que a imagem substituiria a escrita; desde a existência da televisão, afirma-se que o número de leitores diminui, à medida que aumenta o de espectadores;  independentemente do número de leitores aumentar ou diminuir, estamos nos tornando espectadores de quase tudo que nos rodeia.

O homem é um animal simbólico, imagético, sempre esteve em busca de símbolos para entender o mundo, porém os símbolos mudam a cada época. A imagem que fazemos do mundo nos impede de ver além, não conseguimos mais transcender a visão dessa imagem. Apegamos-nos de tal forma a essa realidade inventada que, quando profanada, confrontando-a com a verdadeira realidade, nossa mente entra em conflito.

Se houver um problema, devemos primeiramente procurar sua causa. O verdadeiro problema surge na ignorância da causa. Trabalhando-a, as dificuldades diminuem ou tornam-se esporádicas.

“O mundo é uma grande escola onde são dadas amplas oportunidades às pessoas para consertar seus erros e melhorarem como indivíduos. Ninguém nasce perfeito. Existem possibilidades para todos se aperfeiçoarem. Os problemas e as dificuldades deveriam nos tornar criaturas melhores e não criar complexos e restringir a mente e o coração. Refugie-se em pensamentos grandes e nobres e atinja a perfeição.” (Sivananda 2009)

Essas imagens, essas fantasias que criamos sem nos darmos conta, existem para nos proteger de algo, nesse caso, da realidade imediata, um modo de escaparmos do real, refugiando-se no imaginário. Esse imaginário em que nos refugiamos, nos mantém na ignorância. Podemos nos curar unicamente pelo conhecimento da realidade. O Yoga pode ser um dos caminhos.

Fontes:

Filho, José Hermógenes de Andrade. Autoperfeição com Hatha Yoga. Rio de Janeiro: Nova Era, 2008.

Nasio, J.-D. A fantasia: o prazer de ler Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

Sivananda, Swami. O Poder do Pensamento pela Ioga. São Paulo: Editora Pensamento-Cultrix, 2009.

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Uma resposta para O Caminho para o Real

  1. Washington Oliveira disse:

    A realidade tem sido meu refúgio. Antes eu fugia para a fantasia. O Yoga tem sido minha liberação.

    Namastê.

    Washington

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