pesquisa sobre o Karma

Por Cássia Mesquita

1. OBJETIVO DO TRABALHO

Meu objetivo com este trabalho é me aprofundar no tema KARMA de forma a desmistificar a conotação punitiva e manipulativa que fica associada à minha mente sempre que esse tema é mencionado. Sua idéia me provoca uma associação à manipulação de comportamento pelo medo de punição, ou um mal karma. Parece-me uma ferramenta de manipulação, comando e controle. No mundo de hoje, onde os métodos de manipulação do outro são tão abundantes, onde tanto se aproveita da boa fé das pessoas com a maior falta de cerimônia, sinto que preciso de mais informações para esclarecer esse assunto e desmistificá-lo.

Entenda-se que, ao optar por fazer este curso, minha intenção era adquirir conhecimento aprofundado alternativo ao catolicismo, religião que carrego com restrições severas desde pequena. O fato de questionar os ensinamentos que estão sendo passados durante as aulas do CIFAY, não quer dizer, de forma alguma, que tenha dúvidas sobre o conteúdo e intenções desse Instituto, ou de seus mestres. Trata-se apenas da minha maneira de absorver o aprendizado.

Não tenho dificuldade nenhuma para entender e aceitar o karma como uma lei física, de causa e efeito, pois compreendo e acredito na dinâmica sistêmica do universo. Mas sinto que preciso ir além desse conhecimento básico e remover minha ignorância sobre o assunto, para dar um passo adiante na minha evolução e no melhor entendimento desse recurso que serve de apoio a tantas religiões.

Fui apresentada ao conceito do karma por religiosos espíritas e, por falta de tempo para me aprofundar na ocasião, num primeiro momento associei ao conceito de consequências a más ações. Já experiente com a figura do pecado do catolicismo, algo de antemão me indispôs contra a idéia, fazendo-me decidir mudar os caminhos de minha busca.

Escolhi esse tema para o primeiro trabalho exatamente porque tenho sentido que essa minha resistência tem atrapalhado o aproveitamento de outras informações que estão chegando. Preciso baixar a guarda, me abrir para novos conhecimentos, desocupar espaço mal aproveitado com conceitos equivocados. Por isso, busquei um livro que adquiri há mais de dez anos e que ficou rodando nas estantes de casa todo esse tempo sem ser lido. Alguma razão para não ter me desfeito dele até hoje existe. Só descobri agora.

 

2. A PESQUISA NA INTERNET E LITERATURA DISPONÍVEL

Antes de tudo, pesquisei a internet e li diversos sites, entre eles:

Site: acessoaoinsight.net (Budismo Theravada) – Kamma nos Ensinamentos do Budade um único capítulo do livro Buddhadhamma, escrito pelo Venerável P. A. Payutto

Logo aprendi que o Karma “é um ensinamento não tanto para ser acreditado, mas compreendido e visto em operação.”

“O Budismo é uma religião que coloca a sabedoria, ao invés da fé, em primeiro lugar. A investigação inteligente e honesta não só é bem recebida como também encorajada. Parte dessa investigação requer uma boa compreensão daquilo que conduz à maneira como causa e efeito funcionam no nível pessoal. Esse é o domínio da ética ou moral e é o domínio específico de kamma. Quais os critérios que existem para o comportamento correto e incorreto? Como conceitos, essas palavras dão margem a uma extensa série de interpretações, mas no estudo de kamma estamos preocupados em encontrar definições que sejam práticas e sólidas. Essas definições precisam não só apontar uma direção clara para a conduta moral, mas também oferecer as razões e incentivos para mantê-la. O ensinamento de kamma satisfaz essas exigências….”

Site: budismo

Kamma ou Karma é a palavra para “ato” ou “ação”, e nesse sentido usa-se a palavra em textos mais antigos para ilustrar a importância de desenvolver atitudes e intenções corretas. Considera-se que por gerar carma os seres encontram-se presos ao “Samsara”, e portanto a última meta da prática budista é extinguir o carma.

Site: esotéricos

Costumam falar em karma no sentido de “conjunto de deméritos acumulados” e em “Dharma” como “conjunto de méritos acumulados” (portanto o contrário de karma). Essa terminologia não é consistente com o uso tradicional das religiões orientais, principalmente porque Dharma significa ensinamento ou verdade em vez de mérito ou virtude.

Site: estadodebuda.com.br, que nada acrescentou ao que já havia sido lido.

Tudo aquilo que para mim “parece ameaçar” a livre escolha, me assusta. Mais um motivo para buscar respostas, inclusive para investigar mais de perto o livre arbítrio e seus desdobramentos, para verificar se não estou lidando, de novo, com ideias pré-concebidas.

Me faz pensar no texto abaixo extraído do livro Estúdios sobre la Psicologia de la Yoga, de I.K. Taimni, encontrado no site da sociedade teosófica:

Se há livre-arbítrio no indivíduo e no curso da evolução humana, coletiva e individual, é devido à interação da Vontade Divina com a vontade individual. Mas, em que lei se fundamenta esta interação? É evidente que nas etapas iniciais a lei que governa a evolução humana, permitindo que o indivíduo exerça seu livre-arbítrio, é a lei do Karma em seu aspecto mais amplo. O homem é um ser espiritual, e um ser espiritual pode desenvolver suas potencialidades divinas não pela imposição de um código de conduta exterior, mas aprendendo a fazer o que é justo e estando de acordo com a Vontade Divina por livre escolha, porque vê que isso promove o bem de todos, inclusive dele mesmo. O individuo, ao contemplar a própria natureza do Universo como uma expressão da Ideação Divina apoiada na Vontade Divina, deduz que a meta suprema da evolução e o despertar de sua natureza espiritual dependem de que ele viva e atue em perfeita harmonia com a Vontade Divina. Esta dedução o leva a corresponder-se com o Plano Divino, de maneira harmoniosa e perfeita, para cumprir bem seu próprio destino.

…Aqueles que entenderam bem a doutrina do Karma sabem que o homem aprende a agir bem, não por compulsão externa, mas por decisão interna. Quando pratica o mal tem experiências dolorosas que relaciona com o mal feito. Quando faz algo de bom recebe a recompensa em forma de experiências gratificantes e felizes. Assim, associa naturalmente o que é bom com o prazer e a felicidade, e o que é mau, com a dor e a infelicidade e, de maneira lenta, mas incontidamente, evita fazer o mal praticando sempre o bem, ainda que isto lhe cause dificuldades temporais. É certo que pode tomar-lhe centenas de vidas aprender a levar uma existência justa e ter fé cega na retidão; mas é tal a natureza desta Lei que terá de assimilar esta lição cedo ou tarde. E somente quando a tiver aprendido em plenitude e estiver firmemente estabelecido na retidão, estará preparado para embarcar na viagem da própria descoberta. A retidão é a base indispensável da vida espiritual.

…Isto nos leva à pergunta: “Como determinar o que é ação justa dentro do jogo das circunstâncias, ação que esteja em harmonia com a Vontade Divina ou Rta?” O homem ignora, no início de sua evolução, que existe uma Lei Divina e que só o viver em perfeita harmonia com essa Lei é que pode assegurar-lhe plenitude e verdadeira felicidade. Assim, vive de acordo com os ditames de seus desejos, resignado a colher os frutos doces e amargos que o Karma possa trazer como resultado. Como a má ação lhe acarreta dor e a boa, prazer, vai aprendendo a evitar a má ação e a evitar as tendências que o levam a fazer o mal. Deste modo, sua mente vai se libertando da carga de más tendências, o que aumenta sua cota de felicidade e permite, além disso, que a luz de Buddhi (intuição) se infiltre gradualmente em sua mente. Como fruto deste despertar de Viveka (discernimento) ele começa a perceber a natureza ilusória da vida nos planos inferiores e a futilidade em continuar aliado a interesses mundanos, de poder ou prazer temporais. Começa a intuir que até os prazeres e gozos da existência post-mortem serão temporais e ilusórios, e o manterão atado à roda de nascimentos e mortes com todas as suas limitações, ilusões e misérias.

…Gradualmente desperta em sua mente a compreensão de que existe um estado no campo da Realidade, acima do prazer e da dor. E assim nasce em seu coração o ideal de alcançar aquela consciência espiritual pela qual toma conhecimento de sua natureza divina, que está além das limitações e ilusões da vida inferior…

Mas, a leitura que realmente esclareceu objetivamente e com grande simplicidade minhas dúvidas foi mesmo o livro de Annie Besant, Um Estudo Sobre o Karma, adquirido por mim há mais de 10 anos e jogado de lá para cá, sem ser lido, latente em minha consciência. Todas a situações em azul deste ponto em diante são citações desse livro:

O conhecimento do karma afasta o pensamento e o desejo do homem do âmbito dos acontecimentos arbitrários, levando-os para a região da lei, colocando assim o futuro do homem sob seu próprio controle, a partir da extensão do seu conhecimento.

O estudante deve aprender a observar o karma como lei universal da natureza, e entender também que, ao considerar a natureza como um todo, só poderá conquistá-la e dominá-la obedecendo às suas leis (A natureza é conquistada pela obediência).

O karma é lei – lei eterna, imutável, invariável, inviolável, lei que jamais pode ser rompida e que faz parte integrante da natureza das coisas…

O karma não é mais “sagrado” do que qualquer outra lei natural: todas as leis da natureza são expressões da natureza divina, e nós vivemos e nos movemos dentro delas…

Quando as compreendemos (as leis) podemos manipulá-las, e, se nossa inteligência evoluir, nos tornaremos cada vez mais seus senhores, até que o homem venha a se tornar um super-homem, e a natureza material passe a ser sua servidora…

Por causa dessa ignorância, os ouvintes transformaram essas manifestações em ordens arbitrárias de um legislador divino, enviadas através dele, em vez de considerá-las simples declarações de fatos concernentes à sucessão de fenômenos morais em uma área tão organizada como a física…

Essas poucas frases foram mais do que suficientes para que eu conseguisse olhar para a LEI DO KARMA, com outros olhos, e compreendesse a dinâmica sem penalidades, mas apenas de condições subsequentes, em linha com a visão sistêmica do mundo. Fica desfeita a visão de que as punições ficariam a critério de um julgador divino, pois nunca achei que a natureza divina tivesse essa função, daí minha resistência a aceitar o conceito do karma.

Enquanto cada qual estiver relacionado com a matéria, encarnado em matéria, estará sujeito à lei kármica. Um ser pode escapar ou transcender a um ou outro de seus aspectos, mas não pode, enquanto permanecer em manifestação, eximir-se dessa lei…

Essa Lei Universal de Causação junta, num só todo, tudo o que acontece dentro de uma manifestação, pois ela representa o inter-relacionamento universal. O inter-relacionamento universal entre tudo o que existe – isto é karma. Portanto, coexiste, simultaneamente, com vir à existência de qualquer universo especial. Assim, o karma é eterno, como o EU Universal. Esse inter-relacionamento sempre existiu. Jamais teve início, jamais terá fim…

Uma lei da natureza é uma sequência invariável. Se você não gostar dos resultados, mude as condições precedentes. Se continuar a ignorá-las, estará sem defesa, à mercê das forças impetuosas da natureza; se as conhecer, será o mestre, e essas forças irão servi-lo obedientemente. Toda lei da natureza é uma força que nos torna capazes e não nos constrange; mas o conhecimento é necessário para que se possa fazer uso de seus poderes…

A partir desse ponto no livro, ela começa a falar sobre liberdade, e essa liberdade não é irrestrita, ela existe apenas naquilo que não contradiga quaisquer das leis naturais. Esse fator era também um grande equívoco para mim, pois sempre “sonhei” com uma liberdade irrestrita, sem fronteiras, sem limitações. Para se conseguir o que se quer é preciso não se esquecer de realizar as condições exigidas pela lei. Interessante, mas representa uma condicional de restrição e isso me causa certa frustração. Não que não possa conviver com isso e aprender uma nova maneira de ver as coisas e de agir. Uma questão de mudança de hábito somente.

…”O hábito é uma segunda natureza”, diz o provérbio, e o pensamento cria hábitos. Onde existe a Lei nenhuma realização é impossível, e o karma é a garantia da evolução do homem rumo à perfeição mental e moral…

Importante também o desmistificar do sistema de recompensas humano versus o sistema kármico.

Os resultados kármicos só podem ser da mesma natureza das suas causas. Eles não são arbitrários, como as recompensas humanas…

A partir desse ponto, ela começa a versar sobre o domínio do pensamento e como somos capazes de criar pelo pensamento.

Você elaborou no passado o caráter com que nasceu; agora você está elaborando o caráter com que irá morrer, e com o qual voltará. Isso é o karma. Cada qual nasce com um caráter, e o caráter é a parte mais importante do karma…

Toda a teoria da meditação está apoiada sobre essas leis do pensamento, pois meditação nada mais é que o pensamento deliberado e persistente dirigido a um alvo específico, sendo, assim, uma poderosa causa kármica…

E sobre a minha ignorância anterior:

Esse é o espírito que o estudante do karma precisa adquirir; ele deve aceitar o inevitável sem queixas, mas, sem descanso, procurar os métodos através dos quais lhe seja garantida a obtenção da sua meta, seguro de que sua única limitação é a sua ignorância e de que o conhecimento perfeito deve significar o perfeito poder…

Ela detalha karma coletivo, familiar, nacional, calamidades nacionais….. e finaliza o livro:

Os conhecedores do karma podem trabalhar deliberadamente e conscienciosamente, seguros do seu terreno, seguros dos seus métodos, confiando na Boa Lei. Assim, eles se tornam cooperadores conscientes da Vontade Divina que trabalha pela evolução, e ficam repletos de profunda paz e de alegria infinita.

3. CONCLUSÃO FINAL

Bem, concluindo, achei que eu precisava dessa imersão. Li o livro e praticamente o reli para transcrevê-lo nesse trabalho. Ainda não sei como aplicar esse conhecimento, mas, como diz a própria Annie Besant, “o pensamento cria hábitos”.

Sei que há muito ainda para compreender sobre o assunto, mas entendo que este tenha sido um bom começo. O assunto é amplo e pretendo prosseguir minha pesquisa para conhecer a dinâmica da mente e como controlá-la, talvez ampliando para o tema meditação, não antes de conhecer mais detalhadamente as minúcias da Lei do Karma.

Um dos sinais de que minha pesquisa não pode parar por aqui é que assisti uma reportagem sobre um caçador de nazistas da segunda guerra, Efrain Zuroff, que passa a vida à procura de nazistas para colocá-los perante os tribunais. Ele é judeu e seu argumento é que o tempo não diminui a culpa. Apesar de ter lido o livro inteiro sobre o karma, e passado pelos capítulos específicos de causas e efeitos, não consegui interpretar ou colocar em prática os conhecimentos nesse caso específico. Fiquei confusa: Afinal, este homem está fazendo o bem? Ele está criando karma bom ou mal? Para quem? Ele mesmo? A coletividade? O mundo? Essa culpa que não diminui é de quem, afinal? Não fui capaz de concluir.

É preciso continuar estudando e aprendendo!

 

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