O Que é Yoga? Quem sou Eu?

Por Iseu Nunes

Começar a andar e mais ainda persistir no caminho do Yoga como ser  individual para mim foi surpreendente. Aparentemente vai contra tudo o que já fui ou pratiquei em termos de posturas frente à vida [ persona ]. Sou ( ou era) uma pessoa de índole cética em relação à espiritualidade, para não dizer refratário. Mesmo assim, há alguns anos atrás “resolvi”  começar a ter aulas de yoga. E comecei no Isvara, por indicação de  ex-alunos. No começo achava que yoga resumia-se a aprender e praticar asanas.

Eu aprendia as posturas por imitação, praticava e não gostava mesmo!

Sentia-me dolorido e frustrado..

Dormia como uma pedra na fase do relaxamento em aula. Mesmo assim, naquela  época eu quis fazer o curso de formação de professores para aprofundar o estudo e ver se achava algo novo. O curso não foi ao ar. Fiquei furioso. Aproveitei a “ deixa” para sair velozmente  porta afora do Isvara, achando & resmungando que tinha sido pura perda de tempo ficar me contorcendo feito uma minhoca. Parei de praticar por cerca de dois anos. “Para não dizer que não fiz mais nada relacionado, lia uma vez por semana trechos do “livro “ O chamado dos Upanishads” escolhidos pelo método de abrir ao acaso e ler o que se apresentava. O engraçado é que mal lia  algumas linhas, despencava também em sono (sem sonhos recordados) mais que profundo.

Dois anos depois de sair do Isvara, recebi um e-mail comunicando que o curso de formação voltaria a ser ministrado… Senti um impulso (na época inexplicável) e voltei ao Isvara para fazer matrícula e a freqüentar aulas práticas enquanto aguardava o início do curso. Agora veio a surpresa, pois assim que recomecei a praticar os asanas, os mesmos..mesmíssimos que praticava, notei que não me sentia mais dolorido, uma sensação de bem estar durante e após a prática se instalava em mim..e não dormia  mais no relaxamento. Permanecia e permaneço em um estado de atenção em algum lugar que não consigo identificar, mas me é ( ou me parece)  familiar.

O que será que aconteceu durante este tempo de afastamento. O que desencadeou ou resultou nesta “ adaptação”? Seriam efeitos físicos retardados das práticas (asanas) anteriores? Ou seria efeito de alguma vivência ou processo não consciente. A resposta, consigo intuir, parece estar ligada à resposta para uma pergunta que venho me fazendo desde que iniciei as aulas de Vedanta que consiste mais ou menos em: Se  o apego da Mente ao Ego nos torna inconscientes ou refratários em relação ao que o Vedanta  chama de nossa “ Verdadeira natureza “   O QUE então nos ACORDA? O que nos coloca a caminho?  Quem faz a pergunta primordial que inicia a cisão e o fim do conforto do Ego: QUEM SOU EU? Afinal, quem ou o que  é o EU que faz a pergunta… quem sou EU? O Ego é que não foi ou pode ser  porque pergunta feita, cisão instaurada.

Percebo meio alarmado que a única solução para resolver a contradição e restaurar o equilíbrio entre um eu (Ego) que percebe ( ou é forçado a perceber) que existe algo mais ou além dele (que fez A PERGUNTA)  e um EU que ainda não se mostra à consciência, mas se avoluma e ameaça como hipótese cada vez mais palpável  é chegar ao final do mistério do “quem sou EU”  e de alguma forma tentar integrar estes conteúdos ou realidades.

Vendo em retrospectiva, percebo que ao colocar os pés no Isvara, comecei [ simbolicamente] a me entregar  ou em temos equivalentes, a abrir mão das certezas ou da objetividade individuais, isto significando que esta pergunta “quem sou Eu” é que está por trás (ou pode estar)  da atitude  que me levou pela primeira vez a “ decidir frequentar aulas de Yoga”.

De forma um tanto hilária, começo a perceber  que “a “ dor corporal”, o “ dormir como uma pedra” eram formas de resistência desesperadas do complexo mente-ego-corpo  a um caminho que poderia  ter desdobramentos ( para a mente individualizada ) imprevisíveis ou em termos mais compreensíveis: A pessoa ou Ser  individual somatizou  um  conflito entre o Ego e o EU.

Escrever o que estou escrevendo agora, foi um outro parto. Percebo que estou verbalizando & expressando que estou irremediavelmente dividido, não posso mais recuar, porque não consigo (eu) ignorar a presença desta por ora… sombra projetada do EU. Mais paradoxal ainda para mim é de repente perceber que existe ( ou parece existir) uma dinâmica interior no Ser ( ou do que esta vindo-a-Ser ou Ser-tornando-se consciente) que independe do ego ou de  “ minha vontade” e que sempre esteve agindo todo o tempo impertubávelmente que me levou aonde  [ esta dinâmica] precisava ou pretendia chegar.

Coincidência ou não, observo um notável paralelismo entre o fato de estar hoje aprendendo e praticando Hatha-yoga, que por conta de leituras do Curso ( Cifay) passou a ter  (ao menos para mim) pontos de contato com a Alquimia (1), assunto que estudei e pensei ter descartado. Tive minha atenção despertada para  a Alquimia há  uns 20 anos passados após ver algumas reproduções de figuras ( iluminuras) de pergaminhos alquímicos medievais.

Estas imagens me ocasionaram uma incômoda sensação de reconhecimento  interior tão logo vistas. Querendo saber mais, ao menos para ver se me livrava ou ao menos entendia o que era esta sensação de familiaridade,  li diversos textos clássicos de Alquimia (Mutus liber, Atalanta fulgiens—imagens abaixo). Fiquei fascinado e mais  perturbado ainda,  já que  à medida que lia ( ou via) aumentava a sensação interior de que o objetivo ou insight da Alquimia ( a transmutação do próprio praticante  por conta  ou ao final do processo de trabalhar—transmutar a matéria) era  objetivamente factível ou  possível.

Achei que estava delirando. Meu lado lógico-racional recusou-se a admitir [integrar] a validade de qualquer dado ou insight vindo desta fonte ( Interioridade).  Para mim o nome Alquimia estava associado a um “ produto cultural” de um período histórico atrasado em termos de conhecimento científico, ou para resumir, coisa de ignorante ou analfabeto científico.

Por conta do impasse entre meu lado racional e a incômoda  sensação de familiaridade interior e pior ainda, uma tácita aceitação[concordância] interior para com o insight da idéia da transmutação, andei estudando  a fundo as obras de C. Jung.

Resumidamente,  Jung  coloca a Alquimia e suas imagens como a expressão histórica do  arquétipo do Si – mesmo atuando [operando ou concretizando-se] nas manifestações da psique coletiva ( Inconsciente coletivo) e também na psique individual através de sonhos,  sendo que para esta última estas imagens ou similares fazem parte ou estão associadas ao  que ele [ Jung] denomina Processo de Individuação (2).

A proposta ou construção psicanalítica de Jung não me satisfez. Primeiro porque eu não estava sonhando com nada parecido e segundo e mais complicado, a concordância [ sensação de certeza]  interior com a idéia central dos textos alquímicos ( Possibilidade objetiva da Transmutação) longe de se esfumaçar  ou sumir pelo “ entendimento racional” de que “ a sensação de familiaridade era apenas o reconhecimento de uma mera imagem do inconsciente “ ou ainda: Ah que alivio…. Era apenas uma fantasia; firmou-se como fato consumado. Dei de ombros, fechei e guardei os livros e botei uma pedra em cima do assunto. { Mentira…vez ou outra ao longo destes anos, furtivamente dava uma lida nos textos e voltava a guardar..achei que era “ uma fantasia inofensiva”..ai..ai }

Agora aqui estamos (estou)  a praticar Hatha-Yoga e a reconhecer que realmente a possibilidade (alquímica) de transmutação do ser humano, pelo menos a nível espiritual era e é uma possibilidade concreta e que o Yoga dá meios para se tentar esta incrível aventura,

Constato e reconheço, agora conscientemente de que realmente havia  uma dinâmica interna [ ou interior] agindo, que me levou a ir fazer aulas de Yoga e me trouxe de volta, e agora as coisas finalmente estão mais claras { o que parece ser o objetivo integrador desta dinâmica},

Reconheço que esta dinâmica  interna {Interioridade} era quem reconhecia conteúdos familiares em figuras e textos herméticos e alquímicos…  pois estes falam poeticamente… que é a linguagem entendida { ou falada} pela Alma,

Reconheço que a resistência [ medo] do racional aos conteúdos da Interioridade foram os responsáveis pelas dores corporais e pela sensação de frustração de minha anterior vivência na prática e obviamente por ter saído fora { fuga desabalada} na primeira oportunidade,

Percebo agora que esta fuga era uma mera repetição de todas as minhas fugas na vida, causadas pelo verdadeiro pavor do consciente-racional à Interioridade,

Percebo que ter ficado praticando asanas e pranayamas em aula, no meu primeiro período no Isvara, apesar da resistência feroz de meu corpo-mente, foi instrumental para a exteriorização de conteúdos-energias  “ inconscientes” que sempre estiveram tentando ser integrados ou liberados, ou para usar uma linguagem mais associada ao curso: Desobstruiram-se alguns canais” … Aquietaram-se um pouco “ as ondulações da mente”,

Com isto pelo menos a sombra do Si – mesmo { ou EU} pode ser visualizada, ou melhor,  intuída de vez,

Percebo[entendo]  que Hatha-Yoga é [ pode ser] realmente instrumental para que o estado de Yoga possa ser atingido,

Percebo finalmente, agora com a enorme vantagem do entendimento [ aceitação ] e que é inútil { burrice } fugir  e que se pode através do Yoga..abrir a porta para poder  ir … muito além das fronteiras da finitude ( uau !),

Isto me traz de volta a pergunta: O que é Yoga.

A pergunta tem uma resposta relativa ao ( m–eu) momento:

Trata-se do caminho para expressar quem sou EU,

Única maneira de perceber o que isto se trata, já que não é o Ego, não é nada que eu possa perceber ou nomear ou ver pelos sentidos ou pela mente, mas paradoxalmente, consigo intuir — agora com a ajuda do Vedanta e das práticas —  está  em todas estas coisas também.

O sem forma está em todas as formas, não é idêntico, mas não é diferente. É a pergunta ( ou quem faz) e a resposta.

Confio, aceito…

Bibliografia citada:

(1) Feuerstein G. –  A Tradição do Yoga – Ed. Pensamento -1998- Cap.18 – O Yoga como alquimia espiritual – p. 35 e segs.

( 2) Jung  C.J. – Psicologia e Alquimia – Ed. { burrice } Vozes 2º Ed. – 1994.

Nota *

Por se referir a uma visão pessoal que tenta integrar conteúdos e vivências, os tempos cronológicos e psicológicos não tem uma correspondência exata.

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Uma resposta para O Que é Yoga? Quem sou Eu?

  1. Marílis Tognoli disse:

    Iseu, como sua colega do Vedanta parabenizo voçê por conseguir abrir seu coração e compartilhar conosco, de forma descontraída e até divertida, sua experiência e o despertar da sensibilidade para desvendar os mistérios da interioridade. Acho que todos temos essa resistência inicial, em maior ou menor grau, e falar dela pode ajudar a desvendá-la.
    Marílis

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