Yoga hoje e sempre

Por Heloisa Mazon Peris

Sempre tive a impressão de que se me entregasse ao mundo da yoga acabaria indo meditar no Himalaia ou ficar jejuando até desfalecer.

Fazer parte de um grupo e ter que se adaptar física  e culturalmente a seus estereótipos sempre me causou um certo preconceito. Igrejas que determinam maneiras de se vestir, pessoas que raspam a cabeça quando começam a pertencer a determinadas seitas, pessoas que começam a fazer yoga e começam a andar de túnicas ou com um visual mais indiano.

Não necessariamente isto acontece de maneira impositiva, mas as coisas começam não sei por que a tomar este rumo, como se sempre as pessoas tivessem que se identificar em suas maneiras, seus modos, suas vestimentas para acreditar que estão entregues realmente aquela situação proposta. As que continuam da mesma forma, parecem que não se entregaram totalmente àquilo, não tem tal pertencimento.

Talvez isso não ocorra mais hoje em dia e isso é uma maneira bem generalizada de ver as coisas,  mas essa não é minha primeira tentativa de fazer yoga e este certo preconceito que rodeava minha mente, ou talvez não exatamente um preconceito, mas um medo intimo de me perder de mim sem mesmo nem ter me encontrado, foi também um dos motivos que me distanciaram da yoga por  mais algum tempo.

Toda minha busca, meus questionamentos, toda minha trajetória desde que entendo com alguém neste mundo sempre passou de forma integrada, aberta a todas as religiões, a todas as pessoas, a todas as sensações, mas sempre com medo de fazer parte de um algo, de que alguém ou alguma coisa, por meio  de alguma teoria ou de algum argumento me  tirasse a liberdade que eu acreditava ter d e pensar e agir.Tentava saber de tudo , mas como não me permitia envolver , sabia apenas, não vivia em mim, não sentia.

Religião, grupos de amigos, sempre pertencia a tudo, mas nunca fui de ninguém sempre fui de mim mesma, nunca estive em busca da felicidade, sempre fui feliz, sempre estive em busca de compreender, não sei bem o que, a vida, eu mesma, e de certa forma conseguir controlar uma energia absurda e incontrolável que pulsava dentro de mim. Esse turbilhão energético que me movia, mas que também me desgastava, era cheio de extremos, desde  estremecer de emoção simplesmente em olhar uma paisagem ou de me fazer despencar em lágrimas com coisas absurdamente simples como a sensação que eu tinha desde sempre no meu intimo da presença incondicional de Deus, da certeza da beleza da vida e da benção que eu tinha em poder viver e sentir na alma a possibilidade de descobrir cada vez mais, até chegar as minhas culpas e as tristezas das mazelas humanas e das desgraças do mundo sem o  menor domínio para nenhum dos extremos.

O começo da descoberta do mundo da yoga me pareceu da mesma forma, uma tentativa de que eu fizesse parte de algo e que teria que me moldar para me adaptar a ele e mesmo assim eu queria conhecer aquilo, vivenciar, entender e foram muitas as vezes que tentei fazer aulas e foram muitas as vezes que desisti das aulas, simplesmente porque não gostava daquilo, não entendia aquilo.

Um conceito muito em alta ainda hoje, e que eu já questionava na época, era de que yoga era um bom alongamento e um relaxamento. Duas coisas que eu realmente não conseguia fazer de forma eficiente em uma aula de yoga. Eu não conseguia entender aquelas posturas, não podia ser que era só o que aparentava ser. Tentava me esforçar para entender o que realmente poderia significar como aquilo poderia acalmar ou relaxar, aqueles mantras que muitas vezes não tinha vontade de cantar, aquele incenso que na gostava de cheirar, aquelas posturas que me deixavam ansiosa, mais tensa do que quando havia iniciado a prática.

As aulas normalmente tinham um ritmo que me criavam uma ansiedade com aqueles movimentos lentos, aquela coisa que parecia para senhoras, uma limitação quase da possibilidade do corpo, algo sem muitos desafios, parecendo até mesmo angustiante, limitando o meu corpo e inquietando a minha mente.

Cada vez com a mente mais inquieta, cada vez uma maior busca, de um centro, algo que eu sentisse no meu corpo, que refletisse na minha mente e que inundasse o meu espírito. Minha mente era um turbilhão e meu corpo começava a cansar.

Nadar, nadar  e nadar começou me dar um alento, aquela água me massageando, aquela contagem que eu não podia perder de metros em metros, centenas e milhares de metros e aquilo ia me conduzindo a um relaxamento e a um desligamento que foi surtindo efeito a meu favor. A partir daí se deram uma série de descobertas e uma delas foi o Pilates.

O Pilates me fez conhecer meu corpo em conjunto com a  minha mente. Foi com o Pilates que comecei a entender esta relação. Os movimentos de desequilíbrio e a consciência de que cada músculo  tem que ser acionado para fazer aquele movimento, a idéia de imaginar  o corpo para criar  o movimento e o grande desafio de executar o que foi imaginado  foi me dando uma conhecimento do poder da minha mente sobre meu corpo que eu muitas vezes já havia ouvido falar mas jamais havia sentido.

A consciência sobre meu corpo desafiada por ele e descrita pelo cérebro, gerou em mim uma dimensão de ligação de unidade que já existia em mim em todas as minhas sensações de liberdade e felicidade, de tudo aquilo que sempre sentira desordenadamente, que eu sempre soube que existia, mas a partir deste momento de descobertas sobre meu corpo, sobre minhas possibilidades,   comecei a ter algum controle sobre estas emoções e começar a controlá-las, dispor daquilo no momento que eu quisesse  começou a se tornar como um encontro comigo mesma, uma calma, uma clareza, uma nova possibilidade dentro daquele turbilhão em que eu vivia.

Sem fazer yoga, comecei a entender o que era a yoga e de volta enfim a yoga, com o curso, descobri  cada parte do meu corpo em movimento, cada respiração que me reforçava o poder do meu centro de força.

Cada movimento é um trabalho mental , cada movimento é uma  descoberta de uma parte de mim e o silêncio de cada permanência começou a acalmar minha mente, começou a  se tornar a minha fortaleza, a minha segurança de domínio sobre mim, e como em um passe de mágica, assim mesmo, como mágica, como uma criança que começa a descobrir o mundo, eu comecei a descobrir meu corpo no espaço, minhas possibilidades de movimento e minha maior possibilidade:a de acalmar  o meu corpo e meu pensamento , sentir meu corpo e um conjunto de sensações  com uma outra consciência.

A partir deste conhecimento, começou uma onda de possibilidades de como minhas limitações se refletiam em como eu havia construído meu corpo, em minha percepção em um primeiro momento da minha mente, percebendo minha psicologia e meu olhar sobre a minha realidade de meus conceitos e preconceitos e descobri um novo sentido da vida e sem esforços, sem cobranças, minhas convicções antes claras mas utópicas na minha cabeça, simplesmente passaram a existir no meu coração, sem o peso do erro, livre como nunca imaginei que pudesse me sentir.

Acalmar o corpo,  acalmar a mente e separá-la de mim. Todos os padrões da minha mente  não pertencem mais a mim ,eu escolho a realidade que quero criar, mas dominar a respiração e a mente em uma situação em que o corpo não está dominado tem me feito questionar o suposto domínio que conquistei e esta dança não acaba nunca, pois nesta interligação, nesta conexão complexa, chegar à paz é um caminho árduo, contínuo, mas desejável e possível.

Parece que despertei , comecei, e esse começo não tem um fim, é o inicio de um novo entendimento, de uma nova vivência, da essência da vida. É o final da busca e o reinicio dela.

Poderia ir meditar no Himalaia, raspar a cabeça ou não fazer nada disso. Isso já não faz o menor sentido e a liberdade acende uma luz no meu caminho, parece que tudo ficou iluminado, que eu acendi uma lanterna e vou para onde

eu quiser, livre para o universo, livre de tudo.

Esse é um grande momento, o verdadeiro encontro, o fim da equação do universo que queria desvendar. É uma emoção impossível de descrever.

 

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