Uma breve reflexão sobre Yoga

Por Caroline Maciel da Silva

Convidaram-me a falar um pouco sobre Yoga!

Engraçado que para começar a escrever sobre o assunto, com tal espontaneidade, realizei alguns exercícios para relaxar o corpo, mantê-lo desperto, tornar a mente receptiva ao tema para, então, sentar em frente ao computador.

Acho que agora já iniciamos a nossa conversa sobre Yoga, ou o que venho compreendendo desde que comecei meus estudos!

Existe um preparo, um “treino” diário para sairmos do automático, para ganharmos consciência do aqui e agora e agirmos de acordo com um novo/recém chegado olhar.

Um preparo para que vivenciemos a realidade pura e simples nas relações sem manter qualquer dependência com experiências tidas anteriormente, compreendendo que cada momento é único em seu potencial de realização, de livre expressão do ser!

Diariamente, reproduzimos de maneira mecânica comportamentos pré-concebidos, condicionamentos atrelados a gostos e aversões que pensamos serem determinantes na hora de nos relacionarmos com o universo ao nosso redor, mas que em verdade apenas limitam nossa interação com o mundo, pois extinguem o processo criativo inerente a cada ser.

Os cinco sentidos estabelecem o contato do individuo com o mundo.  Eles captam impressões externas e as recodificam através do pensamento. Os pensamentos geram emoções que interferem no funcionamento de cada célula, cada glândula do corpo. Devido aos diferentes estímulos que recebemos a todo o momento, o fluxo de pensamentos é quase que incessante e descompassado, tornando-nos vulneráveis as emoções à medida que nos identificamos com (confundimos ser) os pensamentos formados, impedindo-nos assim, de manifestar a felicidade que essencialmente nos constitui.

O Yoga atua exatamente nesse processo de desidentificação do Eu – que é permanente e, portanto, sem forma – com o corpo físico – impermanente – e com as formas que a mente assume que também estão igualmente em constante mudança.

E como se dá esse processo de desidentificação que é peça chave para a libertação/expressão da felicidade não-dependente de qualquer estado?

Dentro do Yoga, os ásanas particularmente têm ganhado efetivo espaço nos países ocidentais pelo vigor físico que proporcionam, mas também, a meu ver, pela proposta, pelo chamativo de uma vida mais harmônica e mais plena!

A permanência em cada ásana (postura) revela um fator interessante e fundamental no entendimento do Yoga em si, que é a capacidade de lidar com serenidade e respeito para consigo mesmo, com o apelo da mente e com as emoções que surgem, observando o claro processo de identificação com os estados potencializados pela postura, tendo em vista que são apenas momentâneos. É compreender os limites e o controle que possui para desfazer a posição no instante seguinte com a mesma consciência com que entrou e permaneceu na postura.

Esse “treino” estende-se espontaneamente para além da prática semanal de ásanas, alcançando essas sutilezas no dia-a-dia de cada um, dando mais domínio e leveza para agir em situações adversas. Resultado esse que se acentua significativamente quando realizado em conjunto com a prática de pranayamas que consiste primeiro em dominar a respiração para, em seguida, ter domínio sobre o prana (energia vital) que circula pelo corpo e que trocamos constantemente com o meio.

É fácil observar que nossa respiração funciona de maneira singular em cada estado físico, mental e emocional.

Por exemplo, quando estamos relaxados numa postura confortável, a freqüência entre uma inspiração e outra diminui, o ritmo cardíaco e o fluxo de pensamentos também, podendo gozar de tranqüilidade, paz e muitos outros benefícios que um estar relaxado propicia. Existe uma relação intima entre esses estados (físico mental e emocional) com a respiração, que se compreendida através da observação que intui o Yoga, é possível modificá-la, sem necessariamente, estar vivenciando condições externas favoráveis e obter, assim, concentração e controle suficientes para transpor às pressões internas e cobranças do dia-a-dia.

Já a meditação, se faz em silenciar o corpo adotando uma postura estável e confortável para permanecer por bastante tempo e utilizando estímulos externos, que não silenciam com o simples adotar da postura (como sons e aromas), para se concentrar ainda mais com o objetivo de reduzir o fluxo mental e experienciar o Ser que emana amor e que somos, sem que nenhum esforço precise ser feito!

Diversos são os elementos que conduzem a prática da meditação e também dos ásanas e pranayamas… Falaremos sobre cada uma dessas vivencias, dando-lhes a devida atenção em outro momento.

Agora, para finalizar, gostaria de colocar primeiro uma definição que me ocorreu quando começava a escrever esse artigo, e que me ajudou a elencar esse conteúdo tão fundamental e, em seguida, gostaria de trazer uma reflexão além, que eu não conseguiria escrever com tamanha riqueza visto que a experiência ainda me falta:

O Yoga faz com que nos despertemos para o presente e isso significa aprender a apreciar o gosto real das coisas, e não mais como elas deveriam ser e não são. Ele traz um preparo anterior à ação, e esse preparo consiste exatamente em nos chamar para o presente/a tomar consciência a cada momento de como estamos para agir de maneira completa relacionando corpo/mente com o Ser (realizando um mudra, como diria uma professora, que é todo gesto consciente dedicado a práticas espirituais).

“O iogue que viu a Verdade sabe que não é ele quem age enquanto vê, ouve, toca, cheira, come, caminha, dorme ou respira;

Conversa, deixa ir, sujeita, abre ou fecha seus olhos, tudo com a convicção de que são os sentidos que se movem em sua respectiva esfera de ação.

Aquele que dedica suas ações a Brahman e as executa sem apego não é maculado pelo pecado, como as pétalas do lótus não são tocadas pela água.”

Bhagavad-Gita segundo Gandhi, capítulo V.

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2 respostas para Uma breve reflexão sobre Yoga

  1. Washington Luiz de Freitas Oliveira disse:

    O “estado de espírito” que o contato com o Yoga me proporciona, apesar de ser extremamente menos frequente do que gostaria mas que ainda não tive a atitude de ter, é tão sublime e pleno que me livra da “culpa” desta não ação. A simples gota que sorvo do Yoga me dão tal contentamento que já foi o suficiente para mudar drasticamente o rumo de minha existência. Cada vez mais percebo que não sou mais “eu” a me guiar para a plenitude. Apesar de todos os meus erros, teorias, fracas práticas, intenções sem atos, sigo tentando me “humildar”, como ensina o Professor Hermógenes, cujas palavras e exemplos me inundam de amor. Namastê.

  2. Washington Luiz de Freitas Oliveira disse:

    Por favor, peço que que me perdoem pelo “A simples gota que sorvo do Yoga me dão tal contentamento …”. O correto é ME DÁ.

    Desculpem-me.

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